quinta-feira, 20 de abril de 2017

A Parábola da Língua

Tá na moda. Tá na boca do povo. Tá que tá. Taí. Vão-se longe tais chavões e incontáveis poderiam ser descritos como preceitos para esta ou aquela maneira de expressar uma opinião. Você já se deparou com o espelho e fez alguma pergunta que não poderia ser interpretada por outro interlocutor? Poderia ser um espelho d"água, um espelho de pedra ou até mesmo um verdadeiro ornamento clássico, que vai das casas de banho mais simples aos melhores aposentos do Vaticano. Pouco importa, o espelho sempre estará ali.

O que dizer neste momento crucial. Antes de pestanejar qualquer argumentação, vem do cérebro um comando instantâneo e acontece talvez a mais mágica das armas contidas no íntimo da humanidade: o bom uso da língua. Refiro-me a todas estas velhas, jovens e senhoras de meia idade. Não interessa o quanto tal arma está presente naquele corpo, no seu exército ou mesmo metida numa enciclopédia. Incondicionalmente a língua é aquilo que temos de mais especial e poderoso.

Tudo o que fazemos, antes foi dito, pensado e só depois construído. Foi e é também pela língua, tanto escrita quanto falada, sentida e satirizada, que muito se mata. É pela língua que a humanidade encontra desculpas para todos os seus erros.

Num tribunal a utilização da língua está aquém do réu, literalmente. De um lado a promotoria a fim de verbalizar ferozmente. Do outro a defesa, sempre procurando percalços para inocentar o réu. Quando a situação envolve pessoas, em sua maioria criminosos, o veredicto fica a cargo de um júri, formado por populares e que pasmem! Não podem utilizar a língua em quase nenhum momento. Entende onde quero chegar? O júri só poderá acessar este instrumento quando sair do tribunal para acertar o desfecho do que acabaram de ver e ouvir de línguas, confiáveis ou não. Esta foi a maneira encontrada pela humanidade no que tange as possibilidades de um acusado.

É também pela língua que o bicho homem decide o que come, quem beija, como fala em público, que sabor tem a fumaça daquela droga inalada, e por aí vai. Nesta imensa barafunda, fica difícil decidir qual o verdadeiro sentido do próximo creme dental que você vai utilizar. Discorrer sobre a língua é tarefa esdrúxula em primeiro plano, sem o menor sentido. Quem estaria interessado na exposição de idéias e pontos de vista sobre uma parte do seu corpo. Tanto a língua propriamente dita quanto àquela que batiza os diversos alfabetos e formas de comunicação, impreterivelmente está inserida num contexto social que é no mínimo intransponível. Não é possível que uma criança nascida e criada no Nepal, adquira os mesmos costumes de língua dos norte-americanos ou asiáticos.

O mesmo acontece com os costumes alimentares da língua. Não basta dizer que é vegetariano, que se tornou carnívoro ou que pretende somente preocupar-se com o que sai de sua boca, e não com àquilo que entra. Tornou-se fácil para sociedade martirizar o gado, dizer que ele é irracional para poder matá-lo. O mesmo aconteceu com algumas raças humanas ao longo da história. Quando se faz este apanhado, é preciso uma análise profunda dos fatos sob sua própria ótica. Não está nos livros o que realmente aconteceu em determinada data. Se é pretendido encontrar realmente a verdade, só há duas opções: ou você se especializa em conexão com o inconsciente coletivo, tarefa pouco provável, ou sai a campo e busca in loco o que procura. Mas é preciso ter um cuidado exacerbado, prestando bastante atenção às atitudes tomadas pelo candidato. Ter em mente que um buscador não é um achador, passa a ser seu lema de guerra.

Certa vez escutei alguém dizer: "Busca fora dos livros. Dentro de ti." E levo esta máxima integralmente, até os dias de hoje. Alguns grupos que estudam de maneira não cartesiana as formas que a história foi escrita, propõem que nem tudo aquilo é verdade.

Do ponto de vista da língua, há algo verdadeiro? Sim! Experimente chupar um limão. Ele é sempre azedo. Ele é sempre fruta. Ele é sempre arredondado. Ele é sempre ácido e acre. Isto é verdadeiro e não pode ser mudado. O que é dito pela língua, escrita ou falada, isto sim não pode ser considerado verdade imutável, certamente. Pense nisto!

Por Renato Daidone, jornalista.

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